24/02/2026 17h16 · Atualizado há 4 meses

Um estudo publicado em 1º de dezembro de 2025 na revista científica Pediatrics aponta que crianças que já possuíam smartphone aos 12 anos apresentam maior risco de sintomas de depressão, obesidade e sono insuficiente, em comparação com aquelas que ainda não tinham o dispositivo. A pesquisa analisou dados de mais de 10,5 mil crianças acompanhadas pelo Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente (ABCD, na sigla em inglês), o maior levantamento de longo prazo sobre o desenvolvimento cerebral infantil nos Estados Unidos.

Conforme os autores do estudo, a posse do smartphone aos 12 anos esteve associada a 31% mais risco de sintomas depressivos, 40% mais risco de obesidade e 62% mais chance de sono insuficiente em relação às crianças da mesma faixa etária que não tinham celular.

Ainda segundo o levantamento, quanto mais cedo a criança recebe o primeiro smartphone, maiores tendem a ser os impactos negativos, especialmente sobre o sono e o risco de obesidade. Os pesquisadores observaram também que, entre as crianças que não tinham smartphone aos 12 anos, aquelas que passaram a ter o aparelho no ano seguinte apresentaram, aos 13 anos, pior qualidade do sono e mais queixas relacionadas à saúde mental do que as que continuaram sem o dispositivo.

Para o psiquiatra infantil Ran Barzilay, do Hospital Infantil da Filadélfia, um dos autores da pesquisa, a decisão de entregar um smartphone deve ser encarada como uma escolha com impacto direto na saúde da criança, já que a fase inicial da adolescência é um período sensível do desenvolvimento.

Os próprios autores destacam que os dados indicam associação — e não uma relação direta de causa e efeito. De acordo com os pesquisadores, estudos anteriores sugerem que o uso frequente de smartphones pode reduzir o tempo dedicado a interações presenciais, atividade física e sono, fatores considerados essenciais para o bem-estar físico e emocional durante a adolescência.

Especialistas ouvidos em reportagem do The New York Times reforçam a cautela na interpretação dos resultados. A professora Jacqueline Nesi, da Brown University, destacou que o estudo indica associação, e não causalidade, e que é difícil afirmar de forma definitiva que o smartphone, por si só, cause danos diretos à saúde. Ainda assim, avaliou que os achados podem servir como alerta para que famílias considerem adiar a entrega do aparelho quando possível e reflitam sobre limites e regras de uso.

Esse alerta ganha peso diante do cenário atual. Dados do Pew Research Center, citados pelo The New York Times, mostram que praticamente todos os adolescentes nos Estados Unidos têm acesso a um smartphone, e que a idade média para receber o primeiro aparelho é de 11 anos — o que amplia a exposição das crianças aos efeitos do uso do dispositivo desde cedo.

Nesse contexto, o impacto sobre o sono aparece como um dos principais pontos de preocupação. Conforme estudo de 2023 da Universidade da Califórnia em São Francisco, também com base no banco de dados do ABCD e mencionado pelo The New York Times, cerca de 63% das crianças entre 11 e 12 anos mantinham dispositivos eletrônicos no quarto, e quase 17% relataram ter sido acordadas por notificações do celular ao menos uma vez na semana. Segundo o pediatra Jason Nagata, retirar o celular do quarto durante a noite é uma medida simples que pode reduzir parte dos efeitos negativos, embora especialistas reconheçam que a aplicação dessa regra pode ser difícil na rotina familiar.

Ao final, os autores do estudo ressaltam que os resultados não significam que toda criança que use smartphone cedo terá problemas de saúde, mas indicam a necessidade de maior atenção de pais, educadores, formuladores de políticas públicas e da sociedade sobre os possíveis impactos do uso precoce da tecnologia durante uma fase crucial do desenvolvimento.

Com informações de reportagem do The New York Times e de estudo publicado na revista científica Pediatrics.

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