18/01/2026 22h27 · Atualizado há 6 meses

Quando Lumen Lohn Freitas anunciou nas redes sociais a aprovação no curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a informação rapidamente ganhou repercussão além de seu círculo pessoal. Aos 47 anos, a major aposentada compulsoriamente da Polícia Militar de Santa Catarina conquistou a vaga por meio do vestibular suplementar, modalidade de ingresso destinada a públicos específicos.

Nas publicações, Lumen comemorou a aprovação como a realização de um projeto pessoal e destacou a importância do recomeço e da representatividade. A divulgação, no entanto, também provocou reações críticas nas redes sociais e em diferentes setores da sociedade.

Parte das manifestações questionou o modelo de ingresso utilizado. Um dos pontos citados foi a pontuação obtida no processo seletivo — cerca de 32 pontos, em uma prova com nota máxima de 40 — em comparação às notas exigidas no vestibular tradicional da UFSC, em que a média para o curso de Medicina costuma ser significativamente mais elevada. As críticas levantaram discussões sobre critérios de seleção e políticas de acesso ao ensino superior.

Quem é Lumen

Natural de Santa Catarina, Lumen possui uma trajetória acadêmica marcada por múltiplas graduações, com formações em Direito, Administração, Física, Matemática, Sociologia e Filosofia. Na carreira militar, alcançou o posto de major da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC).

Em 2023, foi aposentada compulsoriamente por decisão administrativa do Governo do Estado, durante a gestão do governador Jorginho Mello (PL). Lumen nega irregularidades e afirma que a medida foi motivada por perseguição ideológica e transfobia. O caso gerou repercussão pública, com debates nas redes sociais e manifestações de apoio de movimentos LGBTQIA+ e entidades de direitos humanos.

Dados do Portal da Transparência do Governo de Santa Catarina indicam que Lumen recebeu vencimentos superiores a R$ 60 mil em pelo menos um mês de 2024, considerando valores brutos acumulados. Essa informação foi utilizada por críticos para questionar sua participação em uma vaga pública de Medicina, curso que figura entre os mais concorridos do país.

A controvérsia

As discussões em torno do caso se concentram principalmente em três aspectos: a modalidade de ingresso utilizada, o histórico político da candidata e o uso do espaço universitário para atividades com conotação político-partidária.

A vaga foi obtida por meio do vestibular suplementar, um processo seletivo com estrutura e pontuação diferentes do vestibular regular, voltado a públicos específicos, como indígenas, quilombolas e pessoas trans. A UFSC informa que a modalidade está prevista em seus regulamentos internos e integra as políticas de ações afirmativas adotadas pela instituição. Críticos do modelo, no entanto, argumentam que o formato pode gerar distorções na comparação entre candidatos de diferentes processos seletivos.

O envolvimento político de Lumen também foi citado no debate. Ela foi candidata a vereadora pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em Florianópolis e participou de eventos e palestras realizados na UFSC ao lado de outros candidatos, incluindo atividades ocorridas em período próximo ao calendário eleitoral.

O que diz a UFSC

A Universidade Federal de Santa Catarina informou que não comenta casos individuais, mas reafirmou que todos os seus processos seletivos, incluindo o vestibular suplementar, seguem critérios técnicos aprovados por conselhos internos. A instituição destaca que as vagas são públicas, com editais divulgados previamente, e fazem parte de políticas institucionais de inclusão.

A UFSC esclarece ainda que a nota máxima do vestibular suplementar é de 40 pontos, com formato de prova distinto do vestibular tradicional.

O episódio reacendeu debates recorrentes no meio acadêmico sobre o equilíbrio entre políticas de inclusão e critérios de seleção no acesso ao ensino superior, além de discussões sobre o uso do ambiente universitário para atividades de natureza político-partidária.

Lumen deve iniciar, nos próximos meses, mais uma graduação, desta vez no curso de Medicina.

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