03/12/2025 18h12 · Atualizado há 5 dias

Em fevereiro desse ano, uma denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) apontou o prefeito de Forquilhinha, José Cláudio Gonçalves (PSD), o Neguinho, como um dos principais envolvidos em uma organização criminosa especializada em fraudar licitações.

Conforme os promotores, Neguinho liderava um esquema de fraudes em licitações, corrupção e direcionamento de obras públicas, envolvendo servidores de confiança e empresários da região.

A investigação descreve, com materialidade, um sistema que teria, em tese, funcionado durante anos dentro da prefeitura de Forquilhinha. A acusada recebeu de um servidor da prefeitura uma justificativa “pronta” para aditivo contratual, enviada por WhatsApp. Ela teria lido o conteúdo e criticado a redação, dizendo que “se fosse o Ministério Público, não aceitaria”, o que indica plena consciência da irregularidade.

Em 2024, por decisão do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), Neguinho chegou a ser afastado do cargo. O afastamento ocorreu em 15 de outubro, durante a terceira fase da Operação Maktub. Na ação, foram cumpridos 21 mandados de busca, um mandado de prisão preventiva, uma prisão em flagrante e o bloqueio de R$ 1,7 milhão em bens para reparar os danos causados ao município, de cerca de 31 mil habitantes.

Após 28 dias afastado, Neguinho retornou à prefeitura em 12 de novembro, por decisão do TJSC, que acolheu os argumentos da defesa e considerou não haver risco às investigações.

Inquérito

A denúncia descreve um modelo típico de “núcleo político” e “núcleo técnico”.

Núcleo político, segundo a denúncia: 

  • José Cláudio Gonçalves, o prefeito

  • Ricardo Ximenes, secretário de Administração e Finanças
  • Assessores

Núcleo técnico

  • Engenheiros
  • Integrantes da Comissão de Licitação
  • Profissionais de áreas de orçamento, obras e projetos

As funções eram complementares. O núcleo político definiria “o que precisava ser feito”, enquanto o núcleo técnico executaria “como seria feito”.

“A engrenagem só funcionava porque os servidores técnicos atuavam deliberadamente para erguer barreiras, ajustar editais e impedir a competição real. O prefeito detinha pleno conhecimento e anuía a todas as movimentações”, narrou Durval da Silva Amorim, subprocurador-geral do MPSC.

Procedimentos investigados

  • Concorrência Pública 184/2021
  • Concorrência Pública 91/2023
  • Concorrência Pública 133/2023
  • Concorrência Pública 166/2023
  • Carta Convite 004/2023

De acordo com o MPSC, todos os procedimentos estão relacionados à construção, cobertura e cercamento do ginásio anexo à Escola do bairro Santa Líbera. Os valores ultrapassam sete milhões de reais.

Os investigadores apontam que havia um padrão: primeiro, o edital era elaborado com cláusulas restritivas; depois, engenheiros municipais validavam planilhas que favoreciam uma única empresa; e, por fim, aditivos eram assinados com valores aumentados.

A empresa beneficiada e os lucros apontados

Os relatórios destacam que a empresa Engetom Construção Civil Ltda. foi a principal beneficiada. O empresário Luiz Tomasi, dono da empresa, aparece como peça-chave no esquema. Conforme a denúncia do MPSC, Tomasi recebia informações antes das licitações, ajustava propostas e mantinha diálogo direto com setores internos da prefeitura.

Organograma dos envolvidos em um dos casos investigados

O MPSC aponta lucros considerados “exorbitantes” pelo empresário em diferentes etapas, incluindo:

  • aditivos na obra principal
  • valores superfaturados de cercamento
  • diferenças entre o contratado e o executado
  • uso indevido de maquinário público para serviços particulares

Perseguição política

A denúncia também expõe que o prefeito Neguinho, em tese, teria perseguido um homem que figuraria como seu opositor político, exigindo que ele fosse demitido.

Neguinho exige demissão de desafeto

O MPSC considera que a atuação era “estruturada, hierarquizada e reiterada”. O caso voltou à tona após uma declaração de Neguinho, dizendo, de forma positiva, que “tira o chapéu” para o Partido dos Trabalhadores (PT).

Sobre a declaração polêmica, até o momento o prefeito não se manifestou sobre o episódio.

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