O delegado do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em Criciúma, Ricardo Leal Kelleter Neto, participou de uma reunião que contou com a presença do pré-candidato a deputado estadual Ulisses Gabriel (PL). O encontro foi divulgado nas redes sociais pelo delegado regional de Criciúma, André Milanese.
Na imagem publicada, Kelleter aparece ao lado de Ulisses Gabriel e de outros integrantes da Polícia Civil (PC). A publicação foi acompanhada da legenda “reunião de peso. DRPs (delegados regionais de polícia) unidos em prol de um ideal”.
Também participaram do encontro os delegados Diego Archer de Haro, delegado regional de Araranguá; Lucas de Sá Resende, delegado regional de Tubarão; André Milanese, delegado regional de Criciúma; e Carolini Vicente de Bona Portão, delegada lotada na Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Tubarão.
Indicação ao Gaeco
Ricardo Kelleter foi colocado à disposição do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) para atuar no Gaeco em um ato assinado pelo governador Jorginho Mello, em 11 de setembro de 2025. À época, a indicação foi feita durante a gestão de Ulisses Gabriel como delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC).
Investigação em Garopaba
Antes de assumir a função de chefia operacional dentro do Gaeco em Criciúma, Kelleter trabalhava na Delegacia Especializada no Combate à Corrupção (Decor), em Tubarão. Naquela ocasião, ele conduziu investigações relacionadas a um suposto esquema de corrupção envolvendo contratos de coleta de lixo no município de Garopaba.
O trabalho investigativo resultou na deflagração da Operação Maestro, que levou à prisão preventiva do prefeito de Garopaba, Júnior de Abreu (PP), além de um servidor público e de um empresário do setor de coleta e reciclagem.
Segundo denúncia apresentada pelo MPSC, a organização criminosa investigada teria movimentado mais de R$ 1,4 milhão em pagamentos de propina destinados a agentes públicos. O órgão ministerial sustenta que os investigados praticaram, em tese, pelo menos 111 atos de corrupção passiva.
Durante as apurações, conversas interceptadas também envolveram o atual prefeito de Pescaria Brava, Luiz Henrique Castro de Souza (PP), que à época exercia o cargo de secretário de Administração de Garopaba.
Apesar de ter sido alvo de medidas de busca e apreensão, Luiz Henrique não foi preso. O fato dele não ter sido alvo de prisão preventiva despertou questionamentos em setores da imprensa catarinense, sobretudo depois que veio a público um encontro entre ele e Ulisses Gabriel, ocorrido dias após a operação ter sido deflagrada.
Apoio político
Por coincidência, em abril deste ano, Luiz Henrique (PP) declarou apoio político à pré-candidatura de Ulisses Gabriel (PL) à Assembleia Legislativa. O anúncio ocorreu durante um evento realizado em Pescaria Brava.
Nos bastidores políticos, circula a informação de que Ulisses estaria utilizando a estrutura pública, bem como seus contatos, para pressionar políticos investigados a declararem apoio ao seu projeto pessoal. A situação também estaria ocorrendo, inclusive, em Forquilhinha.
Até o momento, não há confirmação oficial ou elementos públicos que comprovem eventuais irregularidades relacionadas à obtenção desses apoios.
Possível questionamento jurídico
Segundo avaliações preliminares de especialistas ouvidos pela reportagem, o fato de Ricardo Kelleter estar atualmente cedido ao MPSC e exercer função de chefia no Gaeco exige cautela adicional em relação à participação dele em encontros que envolvam agentes políticos ou pré-candidatos.
Na avaliação desses especialistas, a presença em reuniões que possam ser interpretadas como de natureza político-partidária pode suscitar debate sobre os deveres de imparcialidade e a observância dos princípios que regem a atuação de membros e servidores vinculados às atividades de investigação e combate ao crime organizado.
O que disse o chefe operacional do Gaeco
O Canal Criciúma tentou contato com os delegados Milanese, Ulisses Gabriel e Kelleter. O único que respondeu à reportagem foi o delegado do Gaeco.
O pré-candidato a deputado estadual e delegado Ulisses Gabriel, ao ser questionado, bloqueou o contato da reportagem e não respondeu aos questionamentos. A reportagem também não conseguiu contato com André Milanese, pois o jornalista responsável pela apuração está bloqueado por ele.




