O Canal Criciúma recebe com preocupação informações sobre uma suposta tentativa de criminalização de parte da imprensa, incluindo este veículo de comunicação, representado pelo jornalista Renato Rodrigues. As informações passaram a circular após a publicação da matéria que revelou o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, fazendo uso político do cargo. Nos bastidores, comenta-se que a tensão aumentou ainda mais após o pedido de impeachment assinado pelo jornalista e protocolado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc).
Agora, numa tentativa desesperada de construir a narrativa perfeita para a sociedade e seus apoiadores, o delegado Ulisses Gabriel alega uma suposta “exposição da família”, justamente no momento em que é protocolado, na Alesc, um pedido de impedimento em razão do uso político do cargo — cuja documentação comprobatória é extensa. O delegado chegou a classificar o material de mais de 150 páginas, elaborado pelo Canal Criciúma, como um “documento produzido por uma organização criminosa”.
As imagens que integram o pedido encaminhado à Alesc foram publicadas abertamente pelo próprio delegado em suas redes sociais. O Canal Criciúma, em nenhum momento, expôs imagens da filha de Ulisses Gabriel ou de qualquer outro familiar.
Diante dos ataques nas redes sociais, o representante do Canal Criciúma registrou, neste domingo (9), um boletim de ocorrência para apurar possíveis crimes de calúnia e coação no curso do processo. Isso porque a postagem do delegado-geral, além de manifestamente caluniosa, atribuiu falsamente à representação vínculos com uma suposta organização criminosa, insinuando que o representante integraria uma “quadrilha” com o objetivo de atacá-lo.
Trata-se de acusação gravíssima, cuja finalidade é desqualificar a denúncia e inverter os papéis de investigado e vítima, em flagrante tentativa de manipular a percepção pública e coagir o denunciante. A publicação também revela inequívoco intuito de intimidar o representante, configurando ato de coação.
Tal propósito é corroborado pelos comentários feitos por policiais civis subordinados a Ulisses Gabriel, que prontamente se manifestaram em apoio pessoal ao delegado-geral — atitude que evidencia alinhamento corporativo e tentativa de constrangimento, incompatíveis com a postura institucional esperada de agentes públicos investidos de poder de polícia.
A publicação de Ulisses Gabriel acumula, até o momento, quase 3,3 mil curtidas, mais de 400 compartilhamentos e cerca de 300 comentários — entre eles, de policiais, simpatizantes e apoiadores. Com a repercussão, informações de bastidores indicam que poderá ser feito um pedido de quebra de sigilo telefônico de jornalistas e policiais, por meio do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), sob o pretexto de apurar supostos vazamentos de informação que teriam resultado — segundo o próprio delegado-geral vem divulgando em suas redes sociais — em uma alegada perseguição a ele e a sua família por facções criminosas.
Caso se confirmem as informações sobre a tentativa de quebra de sigilo telemático, estar-se-á diante do maior atentado da história contra a liberdade de imprensa em Santa Catarina, além de configurar grave abuso e ilegalidade motivados por interesse pessoal.
Vale lembrar a decisão de março de 2023 da ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, que suspendeu os efeitos de uma medida que autorizava buscas e apreensão de aparelhos telefônicos e computadores de três jornalistas em inquérito instaurado pela Polícia Civil do Mato Grosso. A liminar foi concedida nos autos de uma Reclamação Constitucional ajuizada pelos jornalistas, em conjunto com o Sindicato dos Jornalistas do Mato Grosso, a Federação Nacional dos Jornalistas e o Instituto Vladimir Herzog.
A reclamação apontou tentativa de violação do sigilo da fonte, além de destacar que a decisão do juiz João Bosco Soares contrariava o entendimento do STF na ADPF 130, que declarou a não recepção da antiga Lei de Imprensa e consagrou o direito à informação e à livre manifestação do pensamento. A ministra também solicitou esclarecimentos ao magistrado acerca da decisão.
“Esse é o primeiro passo, onde demonstraremos que há uma série de inquéritos e processos abertos de forma sistemática contra jornalistas para atender pedidos do governador de Mato Grosso, Mauro Mendes. Essas condutas precisam e serão apuradas pelos órgãos federais com urgência. A decisão também demonstra que o STF não se omite na defesa da liberdade de expressão e do trabalho dos jornalistas no Brasil”, comentou o advogado André Mateus, responsável pela defesa dos jornalistas.
Por isso, é essencial que o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) se mantenham vigilantes diante do caso. A imprensa — que cumpre o papel de informar a população, fiscalizar o poder público e denunciar irregularidades — depende da atuação firme dessas instituições para conter o avanço de um verdadeiro estado de exceção instaurado com o propósito de persegui-la. Caso contrário, algo muito grave poderá ocorrer com profissionais que se recusam a adotar uma postura de subserviência diante de um governo que demonstra não respeitar plenamente os princípios democráticos.
Apesar disso, o Canal Criciúma seguirá cumprindo o seu dever de informar, e autoridades federais já estão sendo contatadas para compreender o que se passa em Santa Catarina.
“Governo policialesco”
De acordo com o site de notícias SCemPauta, o veículo de comunicação tem sido alvo constante de tentativas de assédio judicial. Uma matéria publicada neste domingo também expôs a tentativa de intimidação à imprensa após a divulgação do pedido de impeachment contra o delegado-geral Ulisses Gabriel.
Conforme o portal, o jornalista Marcelo Lula também vem sendo alvo de uma série de atos de perseguição — “às vezes feita por marginais travestidos de blogueiros/jornalistas ou por pessoas ligadas ao governo”, escreveu o site.
Segundo o SCemPauta, o caso já levou o Sindicato dos Jornalistas, a Fenaj e o Instituto Vladimir Herzog a se manifestarem sobre o episódio.






