02/11/2025 19h17 · Atualizado há 9 meses

Uma investigação conduzida pela equipe de reportagem do Canal Criciúma (CC) ao longo dos últimos meses revelou um padrão sistemático de utilização da estrutura e do tempo de serviço público por parte do Delegado-Geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, em benefício de um projeto político pessoal.

Os levantamentos incluem vídeos, registros de deslocamentos, publicações patrocinadas e declarações públicas que, em conjunto, indicam um quadro de atuação político-eleitoral dentro do período de dedicação exclusiva do cargo, o qual é equiparado ao de Secretário de Estado.

O episódio mais emblemático, identificado pelo Canal Criciúma, ocorreu na manhã do dia 29/09, quando o Delegado-Geral foi flagrado entrando no escritório político do deputado federal Ricardo Guidi (PL), localizado no Centro de Criciúma.

No local, o Delegado-Geral reuniu-se com lideranças partidárias, incluindo o até então suplente de vereador Toninho da Figueira (PL). O vídeo mostra Ulisses Gabriel entrando com naturalidade no imóvel e, cerca de uma hora depois, deixando o local em um veículo particular.

Local que Ulisses e Toninho se reuniram.

A prática de atividade político-partidária, se comprovada, contraria o regime de dedicação exclusiva prevista em lei.

Série de reuniões e eventos de cunho político

Os registros apontam que o episódio de Criciúma não foi isolado. Desde julho de 2025, Ulisses Gabriel vem participando de reuniões e articulações políticas no interior do estado, utilizando sua posição e notoriedade como Chefe da Polícia Civil.

Em 21 de julho, o Delegado-Geral esteve em Nova Veneza, reunindo-se com o ex-vereador Aroldo Frigo Júnior e outras lideranças filiadas ao PL. O próprio Frigo Júnior confirmou publicamente que foi convidado por Ulisses para coordenar sua futura campanha eleitoral.

Poucas semanas depois, em agosto, Ulisses intensificou a presença em eventos com o deputado federal Ricardo Guidi, realizando agendas conjuntas em Balneário Gaivota e Sombrio. As visitas incluíram conversas sobre obras de infraestrutura e projetos municipais — temas alheios às atribuições da Polícia Civil, mas típicos de articulações políticas.

Matéria publicada no site de notícias do jornalista Jarbas Vieira

Já em 23 de agosto, Ulisses Gabriel promoveu um evento social em Orleans que, embora anunciado como “festa de aniversário”, foi tratado pela imprensa como festa de “candidato”. A confraternização contou com prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e coordenadores de campanha, entre eles o deputado Guidi, detentor do escritório político em que o encontro com o suplente de vereador foi realizado, confirmando publicamente a “dobradinha eleitoral”.

Matéria publicada no portal 4oito

Roteiro político em dia útil e promessas de campanha

Em 8 de setembro, Ulisses Gabriel participou de um roteiro político ao lado de Ricardo Guidi, visitando seis cidades da região da Associação de Municípios da Região de Laguna (AMUREL). O próprio parlamentar publicou, em suas redes sociais, vídeos anunciando as visitas para “ouvir lideranças e trabalhar por soluções”.

Prefeitos de municípios como Capivari de Baixo e Braço do Norte confirmaram encontros com o Delegado-Geral, sem qualquer pauta institucional da Polícia Civil, mas com debates sobre projetos e compromissos políticos.

Matéria publicada no site de notícias SCempauta

Duas semanas depois, em 26 de setembro, Ulisses concedeu entrevista à uma Rádio de Braço do Norte, onde afirmou estar “à disposição do governador, do PL e da segurança pública que precisa de representação”. Na sequência, fez uma promessa explícita:

“Se deputado for, eu não vou espalhar emenda fora da minha região.”

A fala, também divulgada por outros veículos de comunicação, confirma publicamente o vínculo partidário e o propósito eleitoral do Delegado-Geral, em plena vigência de seu mandato na Polícia Civil.

Publicação feita no instagram do Jornal Razão

Slogam, camiseta, brindes e autopromoção nas redes

O levantamento da reportagem também apurou que o Delegado-Geral passou a adotar um jargão próprio — “AQUI O BAMBU RONCA! LINHA DURA CONTRA O CRIME” — como marca de identidade pessoal, utilizando-o tanto em publicações institucionais quanto em ações de autopromoção.

Em setembro e outubro, o Canal Criciúma constatou a distribuição de camisetas e canecas personalizadas com o mesmo slogan. Os itens foram entregues a apoiadores e autoridades, incluindo o deputado Ricardo Guidi, o parlamentar Gilson Marques (Novo) e a secretária Vânia Faraco, durante agendas oficiais em Brasília.

Além disso, o Delegado-Geral produziu um vídeo com uso do brasão da Polícia Civil, falas do governador Jorginho Mello e legendas de autopromoção, publicado em seu perfil pessoal, que possui, atualmente, mais de 100 mil seguidores.

As apurações confirmam ainda o impulsionamenro (tráfego pago) de postagens com o mesmo jargão e símbolos oficiais, o que reforça deliberadamente o uso da “máquina pública” para fortalecimento de sua imagem pessoal associada à função pública.

Deputados do Partido Liberal já haviam alertado sobre a conduta

Meses antes, a deputada federal Júlia Zanatta (PL) já havia declarado em entrevista à Rádio Araranguá que considerava “estranho” o fato de um Delegado-Geral “estar fazendo campanha em plena função pública”. Ela confirmou a existência de “movimentos paralelos” em conjunto com o Deputado Federal Ricardo Guidi.

Pouco depois, o deputado estadual Jessé Lopes (PL) afirmou publicamente que o chefe da Polícia Civil “usa a máquina do governo para fazer campanha”. A declaração foi repercutida pelo jornalista Adelor Lessa, que acrescentou que a candidatura de Ulisses já era considerada “fato consumado” dentro do PL.

Em contato com Ulisses Gabriel, na sexta-feira (31.out), ele explicou que seu trabalho é “demonstrado por resultados”, e que dentro da Polícia Civil, ele não é conhecido como “vadio ou moita”.

“Hoje é ponto facultativo e estou trabalhando. Eleição é só no ano que vem. Não vou discutir isso agora, pois estou me dedicando a atividade delegado-geral”.

Gabriel justificou que esteve duas vezes no escritório do Deputado Ricardo Guidi, uma para tratar da construção da base do SaerSul e, em outra oportunidade, para tratar da destinação de três viaturas e quatro drones que estão sendo comprados com R$ 800 mil. Ambos, com emenda dele.

“Também já me reuni ou conversei com vários outros deputados para tratar de emendas. O expediente normal da PCSC é das 12h às 19h, mas sou secretário de Estado, na forma da Lei, por isso trabalho 24/7. Quinta-feira (30/out), por exemplo, fui ao Rio de Janeiro (RJ) com o governador e constantemente sou convocado durante a noite e final de semana. Fico a disposição de segunda a segunda do governador e do catarinense, inclusive participando de diversas operações na madrugada”.

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O delegado esclareceu que, como servidor, tem direito a férias e, muitas vezes, usadas em dias da semana e registradas no sistema.

“Além disso, sou destacado pelo governador Jorginho ou Secretário de Segurança para representá-los em eventos e atos. Já visitei cerca de 200 delegacias para buscar melhor os ambientes de trabalho dos Policiais. Então cuidado a me imputar algo, pois vou tomar as providências criminais e cíveis”.

Ulisses negou tratar de questões políticas na função policial. Ele alegou ainda que trata apenas de “situações técnicas, atendendo senadores, deputados, secretários, prefeitos, vices e vereadores de todos os partidos, que apresentam demandas de efetivo, estrutura e obras”. 

O delegado-geral destacou que o cargo de delegado-geral possui natureza política, de livre nomeação pelo Governador do Estado, dentre os integrantes da carreira de Delegado de Polícia Civil, com status de Secretário de Estado.

“Dada a natureza do cargo, não há vinculação ao horário de expediente da repartição. É a mesma regra que se aplica ao Presidente da República, Ministros, Governadores, Secretários de Estado, Deputados, Senadores, Prefeitos, etc. Meu cargo é de representação”, finalizou.

Portal da Transparência – Ausência de descontos e restituições

A partir da resposta encaminhada pelo Delegado-Geral, o Canal Criciúma realizou consulta ao Portal da Transparência do Governo do Estado de Santa Catarina, constatando que não há qualquer registro de desconto, compensação ou restituição de valores ao erário referentes a eventuais períodos de afastamento, férias parciais ou atividades externas informadas.

Condutas

Operadores do Direito consultados pelo Canal Criciúma apontam a existência de um padrão contínuo de atuação com características político-eleitorais por parte do Delegado-Geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, no exercício de suas atribuições funcionais.

Entre as condutas mencionadas, destacam-se:

• Utilização de tempo de serviço público para a realização de atividades de natureza política;

• Reuniões e agendas com lideranças partidárias e cabos eleitorais durante o momento de dedicação exclusiva ao Estado;

• Produção e distribuição de material personalizado, com associação direta à sua imagem;

• Uso de símbolos, canais e estruturas institucionais para fins de autopromoção pessoal; e

• Patrocínio de publicações em redes sociais com linguagem e jargões típicos de campanha eleitoral.

Para os juristas, “o conjunto das evidências, obtidas a partir de registros públicos, vídeos e postagens verificadas, indica a confusão deliberada entre o papel institucional e o projeto político-pessoal de Ulisses Gabriel, lançando dúvidas sobre a neutralidade e a moralidade exigidas para o exercício de um dos cargos mais sensíveis da segurança pública catarinense.”

“Diante da natureza do cargo, equiparado ao de Secretário de Estado pela Lei Complementar nº 741/2019, e da gravidade dos fatos apurados, as condutas identificadas podem ensejar a instauração de procedimento de impeachment, bem como investigações por atos de improbidade administrativa e delitos eleitorais, conforme previsto na Lei nº 1.079/1950, na Lei nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa) e na Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições)”, completou o Advogado.

Posicionamento do Canal Criciúma

Diante do teor e do tom intimidador da resposta do Delegado-Geral, o Canal Criciúma reafirma seu compromisso com o jornalismo isento e factual, pautado na verificação e na transparência da informação pública.

A apuração feita pelo canal baseia-se em fatos documentados, sem emitir juízo de valor ou análise política, tendo como único propósito informar a sociedade sobre o uso do tempo e da estrutura pública por um agente que ocupa cargo de alta relevância no Estado – tema que, inclusive, já foi alvo de críticas públicas de parlamentares do Partido Liberal (PL), Júlia Zanatta e Jessé Lopes.

O Canal Criciúma não se deixará intimidar nem se afastará de sua missão pública. Seguirá atuando com independência, responsabilidade e transparência, honrando seu compromisso com a sociedade catarinense e com o direito constitucional à informação.

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